Mesmo sendo maioria entre os empreendedores, os negros são os que sofrem com a pandemia.

Apesar de não ser uma ciência exata, a Economia se apoia em números e estatísticas para explicar alguns dos mais importantes fenômenos que acontecem na sociedade, envolvendo transações financeiras, trocas comerciais e a performance de determinado mercado. Usando apenas a métrica fria dos números poderíamos dizer, então, que os afro-brasileiros representam uma parcela importante dos brasileiros mais bem sucedidos. Afinal, eles comandam cerca de 51% das pequenas e microempresas registradas no país. Na prática, porém, a situação é bastante diferente. Pois se os números são importantes, também é verdade que, por vezes, eles mostram tudo, menos o essencial. 

É que apesar de representarem a maioria numérica entre os donos de negócios, os afrodescendentes ainda estão muito distantes do topo da pirâmide. Pois muitos se tornam empreendedores exatamente porque não conseguem se inserir no mercado de trabalho, nem mesmo após obter uma graduação de nível superior. Outros tantos, percebem que suas carreiras não evoluem na mesma medida da de colegas na empresa e partem para a projetos-solo. É o empreendedor por necessidade, um resultado direto do racismo institucional. 

Neste ano, o fosso que separa os empresários negros dos demais tem ficado ainda mais evidente por conta da crise econômica, sanitária e social desencadeada pela pandemia de COVID-19. Trata-se de um fenômeno bastante conhecido de pesquisadores que se debruçam sobre a questão, mas que ganhou uma visibilidade extra neste tempo de ainda mais escassez. No caso das mulheres negras, os efeitos têm sido ainda mais perversos. Especialmente daquelas que comandam financeiramente 45% dos lares brasileiros, sejam elas empreendedoras ou não. 

Afinal, de uma hora para outra elas se viram privadas de sua rede de apoio (escolas e creches) e ainda tiveram e conviver com uma brutal perda de renda. Tanto decorrente da paralisação de seus negócios, quanto da suspensão de atividades de prestação de serviços, nas quais estavam inseridas: serviços de faxina, por exemplo.

O prometido apoio governamental, apesar de ter sido alardeado na casa dos bilhões de reais, ficou parado no banco: empréstimo a juros subsidiados apenas para quem tinha o nome “limpo” no SPC/Serasa! Já na largada da pandemia, em março, uma Pesquisa do Sebrae Nacional apontou que nada menos que 12,5 milhões de CNPJs, de 15 setores, distintos sofreriam um brutal impacto por conta da pandemia. A lista incluía os setores de alimentação fora do lar, transporte, beleza e economia criativa

A situação só não se tornou ainda mais aguda graças a uma complexa rede de solidariedade que emergiu no seio da sociedade organizada. Iniciativas lideradas por grandes empresas, por exemplo, ajudaram a minorar o problema pontual da fome e da falta de um kit básico de higiene e limpeza. Por outro lado houve um grande mobilização para disponibilizar recursos para fazer frente às despesas correntes (luz, energia e impostos) que são vitais para manter um negócio de pé. Exemplos nesta linha, Fundo Emergências Econômicas, da coalizão ÉDITODOS, foram lançados por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) comandadas por empreendedores negros.  

Apesar dos percalços, da falta de sensibilidade e organização dos governos e das milhares de vidas perdidas, a pandemia deixou alguns ensinamentos e desnudou algumas realidades: 1) O acesso aos recursos públicos continua sendo dificultado para os empreendedores negros; 2) É possível imaginar um país mais fraterno, no qual os integrantes da elite sejam menos egoístas e 3) Já passou da hora de construir pontes para unir os dois Brasil: aquele onde vivem majoritariamente os negros e pobres e o outro com acesso a serviços básicos como água encanada e esgoto. 

Afinal, um país com mais oportunidades e menos amarras ao seu desenvolvimento será um país mais próspero para todos. E, neste ponto, tanto a aritmética, quanto a ciência econômica concordam. E os números exibidos por países que conseguiram esse feito, estão aí para comprovar! 

Autor: Rosenildo Ferreira

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